Medonho

O louco da cidade
É um espelho às avessas
Em que ninguém se quer ver.

O louco da cidade
É um eterno Judas
Em Sábado de Aleluia.

O louco da cidade
É uma placa afixada
Nas fronteiras do caos.

O louco da cidade
É o sal da sanidade.

Minha cidade tinha o seu.
Medonho, por nome.
Ao vê-lo passar, as crianças
Faziam roda a sua volta,
E lhe imitavam os trejeitos,
E lhe faziam caretas,
E lhe gritavam, soberbas:
– Medonho, sai do meu sonho!
Ele sorria, banguela,
E seguia seu caminho
Em conversa com Deus.

Perambulava pelas ruas,
Magro como um vira-latas.
Nunca não pedia nada.
Catava as sobras no lixo.
Se alguém lhe alcançava um prato,
Aceitava de bom grado,
Mas dispensava a colher.
Raspava o prato com a mão,
E o devolvia, agradecido,
De banguela arreganhada.

Dormia pelas calçadas
Com a roupa velha e o boné
Enfiado na cabeça.
Só no calor mais extremo
Tomava banho na fonte
Com a roupa colada ao corpo.
Depois sentava na grama,
Tirava a calça, a camisa,
E secava ao sol, junto às roupas,
Com o boné sobre o colo.

Até hoje, desconfio
Que a cidade em que nasci
Não tinha um louco a preceito.
Toda vez que eu avistava
Medonho subir a rua,
A conversar com as valetas
E com os postes de luz,
Lembrava de São Francisco
(O santo que me perdoe)
A saudar o ribeirinho,
O irmão Sol e a irmã Lua.

No meio da gente toda
Correndo atrás de dinheiro,
Medonho nada queria,
E ria à toa, feliz,
Insanamente feliz,
A dividir os farelos
De seu pão com as formigas.
Medonho, sai do meu sonho,
Ou cometo a heresia
De atirar tudo pra cima
E ir no encalço de Deus.

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Borboletas no asfalto

Sou do tempo em que os carros falavam
Um bocado sobre seus donos.
Bravos Fuscas, elegantes Opalas,
Operosas Kombis, Jipes rebeldes,
Imponentes Landaus, Corcéis versáteis,
Democráticos Chevettes, Karmann Guias excêntricos,
Mavericks futuristas, Gordinis minimalistas
Desfilavam amarelos, azuis e vermelhos
Pelas ruas calçadas de paralelepípedos.

Os caprichosos paralelepípedos
Sepultou-os aos poucos o liso asfalto
Por onde ora transitam sedans clonados,
Todos pretos, brancos e pardos.
Alguém ainda dirige o carro
Atrás dos vidros indevassáveis?
O computador de bordo refuta
Por impertinente, a pergunta,
Enquanto simula rotas de fuga
Ao engarrafamento onipresente.

Um ciclista passa, rente,
Espantando as borboletas
Tatuadas sobre o asfalto.

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Poemas que escolhi para as crianças

Poeminha meu na antologia da Ruth Rocha, intitulada Poemas que escolhi para as crianças.

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Ninguém é inocente em Brasília

PINDORAMA É O PAÍS DO FUTURO
OU
NINGUÉM É INOCENTE EM BRASÍLIA
OU
A CULPA É MINHA
OU
A HORA DA ESTRELA
OU
UMA SENSAÇÃO DE PERDA
OU
ASSOVIO NO VENTO ESCURO
OU
SAÍDA DISCRETA PELA PORTA DOS FUNDOS

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De flores e espinhos

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor.
Se eu me chamasse Nelson Cavaquinho
Não brincavas assim com meu amor.

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Enguiço

A luz nos ilumina na cozinha.
A energia elétrica circula pelos fios,
vinda de distantes centrais geradoras.
O gás aquece a pizza no forno.
Lavo as mãos na pia. A água jorra da torneira,
atravessando a parede dentro dos canos.
Falo contigo. As ideias circulam através das palavras.
Com tanta riqueza à nossa volta,
ocorre nos sentirmos pobres.
Ocorre que as ideias trombam, e as palavras enguiçam.

Tu cortas a pizza. Brindamos,
por hábito. No silêncio da sala,
Mignone inventa uma valsa para piano.
Se tudo corresse bem,
ríamos agora de coisas passadas.
Fazíamos planos, talvez.
E não acontecia este poema.

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Poeminha à maneira de Emily Dickinson

Para a minha velhice
Só espero merecer
Um quintal para a horta
E tempo para escrever.

Se faltar a horta,
Bastará a memória
Dos dias bem vividos.

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