Borboletas no asfalto

Sou do tempo em que os carros falavam
Um bocado sobre seus donos.
Bravos Fuscas, elegantes Opalas,
Operosas Kombis, Jipes rebeldes,
Imponentes Landaus, Corcéis versáteis,
Democráticos Chevettes, Karmann Guias excêntricos,
Mavericks futuristas, Gordinis minimalistas
Desfilavam amarelos, azuis e vermelhos
Pelas ruas calçadas de paralelepípedos.

Os caprichosos paralelepípedos
Sepultou-os aos poucos o liso asfalto
Por onde ora transitam sedans clonados,
Todos pretos, brancos e pardos.
Alguém ainda dirige o carro
Atrás dos vidros indevassáveis?
O computador de bordo refuta
Por impertinente, a pergunta,
Enquanto simula rotas de fuga
Ao engarrafamento onipresente.

Um ciclista passa, rente,
Espantando as borboletas
Tatuadas sobre o asfalto.

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Poemas que escolhi para as crianças

Poeminha meu na antologia da Ruth Rocha, intitulada Poemas que escolhi para as crianças.

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Ninguém é inocente em Brasília

PINDORAMA É O PAÍS DO FUTURO
OU
NINGUÉM É INOCENTE EM BRASÍLIA
OU
A CULPA É MINHA
OU
A HORA DA ESTRELA
OU
UMA SENSAÇÃO DE PERDA
OU
ASSOVIO NO VENTO ESCURO
OU
SAÍDA DISCRETA PELA PORTA DOS FUNDOS

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De flores e espinhos

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor.
Se eu me chamasse Nelson Cavaquinho
Não brincavas assim com meu amor.

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Enguiço

A luz nos ilumina na cozinha.
A energia elétrica circula pelos fios,
vinda de distantes centrais geradoras.
O gás aquece a pizza no forno.
Lavo as mãos na pia. A água jorra da torneira,
atravessando a parede dentro dos canos.
Falo contigo. As ideias circulam através das palavras.
Com tanta riqueza à nossa volta,
ocorre nos sentirmos pobres.
Ocorre que as ideias trombam, e as palavras enguiçam.

Tu cortas a pizza. Brindamos,
por hábito. No silêncio da sala,
Mignone inventa uma valsa para piano.
Se tudo corresse bem,
ríamos agora de coisas passadas.
Fazíamos planos, talvez.
E não acontecia este poema.

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Poeminha à maneira de Emily Dickinson

Para a minha velhice
Só espero merecer
Um quintal para a horta
E tempo para escrever.

Se faltar a horta,
Bastará a memória
Dos dias bem vividos.

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Mar bravo

Mar que ouvi sempre cantar murmúrios
Na doce queixa das elegias,
Como se fosses, nas tardes frias
De tons purpúreos,
A voz das minhas melancolias:

Com que delícia neste infortúnio,
Com que selvagem, profundo gozo,
Hoje te vejo bater raivoso,
Na maré-cheia de novilúnio,
Mar rumoroso!

Com que amargura mordes a areia,
Cuspindo a baba da acre salsugem,
No torvelinho de ondes que rugem
Na maré-cheia,
Mar de sargaços e de amarugem!

As minhas cóleras homicidas,
Meus velhos ódios de iconoclasta,
Quedam-se absortos diante da vasta,
Pérfida vaga que tudo arrasta,
Mar que intimidas!

Em tuas ondas precipitadas,
Onde flamejam lampejos ruivos,
Gemem sereias despedaçadas,
Em longos uivos
Multiplicados pelas quebradas.

Mar que arremetes, mas que não cansas,
Mar de blasfêmias e de vinganças,
Como te invejo! Dentro em meu peito
Eu trago um pântano insatisfeito
de corrompidas desesperanças!…

(Manuel Bandeira, do livro O ritmo dissoluto)
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