Críticas sobre o autor

Maria do Carmo Campos
Paulo Becker apresenta-se inventivo, sob um ludismo pincelado de sombras, como a metáfora da parteira de monstros. Afeito também aos temas urbanos, desenha a cidade como um espaço em que as coisas vão assumindo comportamentos e vícios humanos: Nas calçadas vorazes / hidrantes filosofam. / Os ônibus fumantes / têm câncer no motor. / (…) Os prédios com angústia / tentam a psicanálise (…).  Hábil nos dísticos e na paródia, o poeta escreve um Soneto a Vinícius de Moraes não exatamente para louvar o poeta centenário, mas para alertá-lo sobre as consequências do álcool, servindo-se justamente de uma fala do corifeu na tragédia carioca Orfeu da Conceição. Singular é o tom irreverente no soneto Alma amara, inspirado em conhecido soneto camoniano, ao qual Paulo Becker empresta fina ironia, enquadrando um alicerce da poesia portuguesa em patamar mais jocoso, que subverte hierarquias e a tradição.
“Palavras voam”. In: OLIVEIRA, Vera Lúcia de; DALL’ALBA, Eduardo et al. Palavra não é coisa que se diga.  Porto Alegre: AGE, 2013

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Maria Tereza Zatti
O primeiro poema de Luas de neon, intitulado “Ouverture, já revela o poeta tentando travar um embate sem nele acreditar, sozinho, próximo ao ceticismo, conforme a segunda estrofe:
Descubro-me sem pai no embate,
assombrado como Nietzsche
falando sozinho com um cavalo.
E no decorrer deste livro, o leitor é conduzido a reflexões em que o lirismo não ameniza a dor das descobertas sobre a existência e os rumos que a humanidade segue. Em “Exílio na rua Cipó”, os sabiás cantam dentro de gaiolas, a praça é calçada de lajes, a natureza é aprisionada pela civilização. E as inquietações do poeta não param aí. No poema “Camus”, ele chega a se questionar se alguma coisa vale a pena ou se tudo são variantes do suicídio. Em muitos poemas, a idéia da desesperança e da inutilidade das ações revela um autor angustiado que tenta se agarrar à palavra para existir como parte desta humanidade que ele tenta decifrar. Em “Postal”, ao comparar o Rio de Janeiro a Guernica de Picasso, ele utiliza um recurso recorrente – a intertextualidade – com Camus, Manuel Bandeira e Fassbinder, quando ele faz uma cena paródica do filme O casamento de Maria Braun. Nem a literatura escapa do ceticismo do autor, da sua perplexidade. Em “Auto-retrato”, pergunta:
Que pode a literatura
contra a vida a se perder?
Meus versos mal deixam ver
quanto em mim fica no escuro.
A angústia da palavra continua em “Poeta incomunicável”:
Nem pra ti mesmo tu escreves
eis senão quando te esqueces.
E a nossa literatura continua… com o poeta ainda perplexo e sem crença…
Mas descubro em alto-mar
que a vida é um barco à deriva.
Em “Revés” temos uma admirável síntese de quatro versos:
Onde esperas
colher as
nêsperas,
vespas.
Sempre o obstáculo, a contrariedade, a existência como uma sucessão de dificuldades, uma preocupação constante com a morte, a presença dela no cotidiano como nos versos:
E mesmo em pleno dia, amante,
vem beijar-me em cada cigarro.
Uma relação quase amorosa com a morte, porque ela é inevitável e vem pelos perigos do dia-a-dia, pelo cigarro que mata aos poucos. O tema volta em “Última viagem”:
Antes de embarcar no ônibus
que um dia pára pra todos,
qual fumante incorrigível,
relutarei, pé no estribo,
sorvendo, com lábios trêmulos,
a tragada derradeira.
O poeta também percebe a imagem feminina. Em “Maria e Margarida”, duas mulheres têm comportamentos opostos, mas a nenhuma delas o poeta dá um final feliz. Para as duas, a saída é a palavra escrita:
Maria tem um diário
Margarida escreve romances.
No poema “Ossos do ofício”, o poeta se assume como um trabalhador da palavra:
Intelectual uma ova!
Se me sujo mais de tinta que um mecânico de graxa
pra consertar um poeminha ano 69.
Em “Fogo cruzado”, ele ironiza os cuidados com a vida e a saúde, alertando:
Há pontes e bombas caindo,
Há vulcões ressonando sob o asfalto.
Neste livro, os temas recorrentes de Paulo Becker são a vida e a morte, a falta de esperança, a perplexidade diante da existência. Sua palavra nos fere como lâmina afiada, sem nos dar alívio. É uma poesia sem concessões, para fazer pensar, refletir. Para ler e reler. Para admirar a densidade, o talento em transformar toda esta reflexão sobre a existência em palavra poética, em lirismo seco, em metáfora dura, em síntese perfeita.
“Poeta, trabalhador da palavra.” PORTO & VÍRGULA, Porto Alegre, Secretaria Municipal da Cultura, nº 44, 2002.

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Celso Gutfreind
Há uma espécie de efeito-rebote em toda boa poesia. Que também é a que abeira o infantil (sem o ser), isso no sentido de devolver um certo primeiro olhar, conforme bem constatou Michel Houellebecq. Disso talvez o efeito-rebote, porque a boa poesia parece fazer sentir e pensar, calar e perguntar. E perguntar outra vez como criança que vai perguntando, perguntando, porque encontrou o mundo, que é a sua grande descoberta, mas uma descoberta sem resposta, portanto mais perguntas. A boa poesia é um mundo novo.
Vai daí que muito se pode dizer de Luas de neon, livro mais recente de Paulo Becker. Que não é um mero amontoado de poemas, já que demonstra uma unidade desde a Oeuverture, que abre a coletânea em ritmo de solidão e cidade (“Entro na cidade entoando a justiça e o amor, / apaixonado como Maiakóvski / falando sozinho com as outras pessoas.”) aos Noturno e Cuore, que fecham a obra cumprindo o respeito ao ritmo, portanto recolhendo-se no final, mas aí já com as marcas do que pode ter sido a viagem da própria leitura, no caso metáfora da vida (“Sou ônibus recolhendo / Não paro pra mais ninguém.”).
Que Luas de neon é versátil, resguardadas as duas obsessões, e vai recolhendo a sua poesia a partir de temas bastante variados, como o desencontro ou o incomunicável (Voragem, Titubeios, Poeta incomunicável), o sentido da vida (Camus), a maturidade (Os quarenta), o erotismo (Flores de inverno, Banhista de topless), o quotidiano (Tournée), a contradição (Baratas), o desejo de morrer (Morrer), o desejo de viver (As meias vermelhas), a metalinguagem disposta a não ser mais meta (A palavra cão morde) e tantos outros de que espero dar conta ao longo desta resenha e não agora, em lista fria e redutora.
Se Luas de neon também alude volta e meia à filosofia universal (o Nietzsche presente na Oeuverture), o livro sobretudo conversa com a tradição poética brasileira, referindo-se com frequência a seus poetas e a seus poemas. Há exemplos no Exílio na rua Cipó (“Por que diabos ainda há sabiás? / Por que cantam, prisioneiros? / Minha terra tem palmeiras.”), expressando, à nossa leitura, que, já bem longe do Romantismo, um exílio pode se dar dentro do próprio país e diante de suas palmeiras. E também no Manuel Bandeira, não eu, em que vida e arte de aprendiz e mestre parecem confundir-se: “E, mais que meus, eram de Bandeira os suspiros / que eu dava, presa de futuras nostalgias, / pensando na vida e nas mulheres que amaria.”. E também na cutucada na oeuverture da obra do próprio Drummond quando, em Epifania, Becker expressa com uma ironia à la Quintana ou um humor à la Bandeira: “Quando eu nasci, os anjos / já estavam desacreditados.”
A todas essas, Luas de neon revela uma continuidade com os livros anteriores do autor, Meus demônios cantam, de 1991, e Alta tensão, de 1986, no qual, na abertura, Becker chegara a dar o estatuto de pais aos poetas Drummond, Bandeira e Cabral (Gullar estava, de própria voz, na quarta capa).
Pode-se também dizer da nova coletânea que ela traz de volta um dos pontos mais fortes do poeta, nem sempre presente em autores contemporâneos, que é o cuidado com o verso e os seus recursos. Becker mostra-se novamente capaz de dominar o difícil e temido verso livre. A destacar o cuidado com o nível sonoro de seus textos, isso com uma habilidade que pode ter herdado de Quintana. Em versos como “Cai, chuva, cai sobre as ruas de chumbo”, “Ivo viu a vulva, a vertente, o Vesúvio” ou ainda “Arroja a morte a jato”, o poeta alcança o manejo de aliterações e assonâncias com uma sutileza capaz de conduzir o som ao(s) sentido(s), sem precisar exagerar o tom das notas ou desafinar em nome de uma forma rebuscada, marcas cabais em Quintana. Com simplicidade, enfim, o poeta consegue sugerir que chuva e chumbo se confundem na imagem a partir da própria palavra, que Ivo cresceu a ponto de conhecer vulvas, vertentes e Vesúvios, mas sem se esquecer da cartilha ou até mesmo a partir dela (os vês das aliterações, afinal, permanecem), e, no caso do terceiro exemplo, dar um efeito de velocidade através da combinação de sons entre o arrojo e o jato. Falando em som, é possível reparar aqui um eco de seus textos mais antigos, como os que figuram nas antologias dos tempos do Prêmio Habitasul – Correio do Povo Revelação Literária, época em que o poeta despontou, ainda adolescente, mas já com uma maturidade e uma profusão de temas e formas que o levaram à, digamos, glória de substituir Quintana em suas férias da prestigiada página que ocupava no Correio[do Povo].
Passada essa nossa página de dizeres, todos evocados no jogo de perguntas e respostas que o livro nos proporcionou ao devolver um certo primeiro olhar, guardamos para o final nossas duas impressões maiores.
Uma é que Luas de neon, sempre à nossa leitura, demonstra uma evolução importante em relação aos livros anteriores do autor. Fiel a seus temas mais caros, como uma certa dor diante da injustiça do mundo e um espanto e uma raiva por esse mundo ser como é, Paulo Becker parece ter afiado ainda mais a sua forma e encontrado uma nota de sutileza que torna a sua poesia ainda mais engajada e eficaz. As imagens de poemas como Faxineira (p. 54) o ilustram muito bem: “A faxineira, sem espanto / de espanador em punho esgrima / com os móveis: o pó espirra.”. Ou ainda nas do longo e contundente Alto-mar (p. 46), onde diz: “… movediça, é água, é o mar / que me engolfa e me expõe / – maldito e onipresente – / aos dentes dos tubarões.”
A outra é que essa poesia se diferencia de boa parte de nossa produção contemporânea, senão pelo que já dissemos, por pelo menos mais dois motivos:
1 . Capaz de filtrar as referências, vividas ou lidas, como fizera com a forma, a poesia de Paulo Becker encontra o seu próprio tom: mais grave ou agudo, a nosso ver pouco importa. Ao largo de conceitos ou teorias sempre efêmeros (a efemeridade, aliás, é outro de seus temas), a poesia de Luas de neon consegue a difícil tarefa de ser ela mesma, novamente aproximando-se da arte de ser das crianças, sempre autênticas antes de se entregarem à adaptação à realidade ou abrirem mão de seu sonho quixotesco, como expressava o adulto José Paulo Paes.
2. Não utiliza as palavras como defesa, contenção ou afastamento do que é a vida, vivida ou inventada. A ponto de expressar o próprio sufoco que é não abrir mão de meter, vital e verbalmente, a mão na massa de tudo o que está aí e, por isso, a necessidade de algum refúgio ou desvio da barafunda. No caso, o oásis vem nas variações em torno da imagem da bebida como em o “Bebo até rir do voo das moscas” ou no “Emborcar garrafas de vinho, / insaciáveis como os suicidas” ou ainda no embalado “Em algum bar da cidade, / entre gentlemen e ladies, / bebo um copo de cerveja / à espera do inesperado”. Ecos de Rimbaud talvez, mas agora à la Becker.
Porque também esse mérito o livro guarda: o de uma poesia que é capaz de beber ou se desesperar sem se entregar à morte ou ao artifício.
“Luas de neon, e de verdade.” VOX XXI, Porto Alegre, IEL – Corag, nº 17, abr. 2002.

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Rogério Eduardo Alves
A trilha aberta pelos versos de Paulo Becker, 40, em meio à corrosão a que está sujeito o mundo contemporâneo, leva da incomunicabilidade à morte, sem deixar escapar, no meio do caminho, as (tentativas de) relações humanas e a degradação dos objetos.
“Entro na cidade entoando a justiça e o amor / apaixonado como Maiakóvski / falando sozinho com as outras pessoas.” Esta a abertura de Luas de neon, que, mesmo antes de ser livro, tinha versos estampados nas janelas dos ônibus de Porto Alegre (RS) para todo mundo ler – parte do projeto Poemas no Ônibuas, promovido pela prefeitura daquela cidade. Ironia?
“Foi uma experiência muito interessante embarcar em um ônibus, geralmente lotado, em cujas janelas figurava um poema meu. Isso deu-se no início dos anos 90. Era inevitável acabar observando, dissimuladamente, se alguém esbarrava com os olhos no poema e se detinha nele, ou se todos estavam atentos a outras coisas. E quase sempre o poema permanecia invisível aos outros passageiros”, lembra o hoje professor de teoria e crítica literária da Universidade de Passo Fundo, autor de Mario Quintana: as faces do feiticeiro (1996).
Consciente da necessidade de comunicar, esse gaúcho de Dois Irmãos não se contenta com a rotina do falar sozinho e a enfrenta mantendo um olho respeitoso no leitor. “Busco evitar sempre que possível a produção de metapoesia, não só porque Pessoa, Drummond, João Cabral e outros já exploraram com maestria os meandros e percalços da criação poética em poemas inigualáveis, como também porque, ultimamente, esse assunto tem sido explorado até a náusea por muitos poetas, e penso que isso acaba por afastar o leitor do texto poético”, diz Becker.
“A poesia fica falando de si mesma e se esquece de dizer o mundo, de transmitir uma emoção do mundo. Penso que a poesia seja justamente isso, traduzir em palavras e ritmos não uma visão do mundo, mas uma emoção do mundo. E, quando os poetas conseguem fazer isso, sempre encontram leitores, ainda que poucos.”
A facilidade com que se lê os poemas de Becker parece não condizer com a densidade dos temas abordados. Influenciada pela visão do cotidiano de Manuel Bandeira e contaminada pela corrosão drummondiana, a mensagem chega clara, sem obstáculos, potencializando o efeito devastador de suas palavras.
Métrica
A frieza com que Becker caracteriza o agora e suas agruras tem na métrica dos versos seu emblema. Em tempos que muitos escritores só vêem possibilidade de expressão por versos livres, Becker encontra a medida.
“Eu ainda não publiquei sonetos, mas venho utilizando cada vez menos o verso livre. É muito difícil resolver bem um poema em verso livre. E, depois, há todo esse barulho dos versolibristas atuais, e os textos de muitos deles me parecem antes prosa versificada que poesia. Então fico temeroso de que o ouvido do público ensurdeça aos ritmos mais fluidos do verso livre, pela superexposição a essa forma.”
É verdade que, neste Luas de neon, o poeta ainda usa a forma livre, que não deve comparecer, porém, nos seus novos textos, que serão reunidos sob o título, ainda provisório, de “Paralelepípedos”: “Será composto de séries de seis sextilhas hexassílabas. É um exercício de contenção, talvez uma forma de escape ou de compensação diante do caos que nos cerca”.
Enquanto trabalha mais contenção para o futuro, Becker faz de seus versos, neste que é seu terceiro livro de poesia – os dois primeiros foram Alta tensão e Meus demônios cantam -, um caminho para a morte: “Neste domingo chuvoso, como tantos de tuas visitas, / dou na tua sepultura, na cidade em que vieste morrer. (…) Vó, chega para lá, dá um lugar para mim.” Única saída?
“Procuro expor em meu livro algumas contradições da vida contemporânea, que nos colocam como pêndulos a oscilar entre os extremos. Mas não coloco a morte como meta, a não ser em termos simbólicos. Muitas vezes é preciso que uma parte de nós morra para que a outra siga vivendo fortalecida, ou que determinada forma de ser seja abandonada para que outra se inaugure.”
“Becker expõe contradições da vida moderna.” FOLHA DE SÃO PAULO, São Paulo, 23 mar. 2002.

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Deonísio da Silva
O professor e poeta Paulo Becker (41) define uma turnê mais frequente, feita pelos habitantes de uma pequena cidade toda semana, nestes versos: “Segunda-feira se arrasta: / gato de espinha quebrada. / A terça dá o desespero, / como uma fila parada. / Quarta-feira é um atoleiro / numa estrada abandonada. / A quinta, locomotiva, / soa o apito e desembesta. / Vestida de festa, a sexta / vai passear na floresta. / O sábado, shopping center, / dá de brinde um pirulito. / O domingo, de ressaca, / já começa no palito. / Segunda-feira se arrasta.”
“Etimologia.” REVISTA CARAS, 437, ano 9, n. 12, 22 mar. 2002.

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Susana Vernieri
Luas de neon é o mais recente livro do poeta gaúcho Paulo Becker. Nele, o universo noturno predomina de forma a criar uma atmosfera de corrosão e decadência.
– Os poemas não trazem uma visão muito otimista da existência – reconhece o escritor nascido em Dois Irmãos, doutor em Letras pela PUCRS e professor de teoria e crítica literária na Universidade de Passo Fundo.
Escritos desde o final da década de 80, os textos, quando tematizam o dia-a-dia da cidade, o fazem de forma a mostrar o seu lado escuro. Para alcançar este objetivo, dois motivos pontuam a trajetória do sujeito lírico: o cigarro e a bebida.
Como exemplo do uso dos dois temas, vale citar o poema homônimo ao título do livro:
Ardo noite adentro,
bardo bar em bar.
Meu cigarro, brasa
a vagalumear.
Vejo sem ser visto.
Falo sem quem ouça.
Sofro a conta-gotas.
A professora e coordenadora do Acervo Literário da PUCRS, Maria da Glória Bordini, explica na apresentação de Luas de neon que nas perambulações desse fumante compulsivo, desse bebedor desgostoso, ovelha desgarrada de um rebanho dócil, a imagem que assombra horas e situações é sempre a mesma.
– A da iminência da morte, para a qual se nasce e em que o ser de ficção que fala ao leitor no texto não vê qualquer transcendência, por mais que deseje ou invoque.
Mas ao lado de uma poesia voltada para um lado mais pessimista, se vê nos versos de Becker, 40 anos, a influência de outros poetas que souberam fazer do otimismo o seu motor. Há Manuel Bandeira presente de forma explícita no poema “Manuel Bandeira, não eu”:
De Bandeira os versos torrenciais, dilacerados e alegres sobre a alegre vida pungente,
que repercutiam em meu cérebro como numa câmara de ecos,
como eram invenção dele todas as verdades simples
que eu mesmo queria ter descoberto.
Há também a lembrança de Drummond, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar nos versos de “Achados e perdidos” e de Gonçalves Dias com sua “Canção do exílio” sendo lembrada em “Exílio na rua Cipó”. Paulo Becker publicou anteriormente dois livros de poesia, Alta tensão e Meus demônios cantam, dois títulos infantis, Meu pai saiu de casa e O segredo dos planetas, e o ensaio Mario Quintana: as faces do feiticeiro.
“Poeta gaúcho canta as trevas.” ZERO HORA, Porto Alegre, 20 mar. 2002.

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Maria da Glória Bordini
Paulo Becker, além de professor de literatura e de autor de excelente estudo crítico sobre Mario Quintana, tem um talento raro para o verso livre, mordente. Sem dever nada a ninguém, por seu próprio esforço e muita leitura, foi poeta iniciante, teve obras recusadas, lutou pela publicação, obteve alguma atenção da crítica e, agora, aparece em plena forma, com uma voz lírica que soa como um toque de alerta aos insensíveis e aos fúteis. Praticante, desde os primeiros trabalhos, de uma poética áspera, engajada, feita de chão batido, trabalho e suor, atinge neste livro um estilo ao mesmo tempo estudado e espontâneo, talhado sobre a dureza de pedra da vida, comunicativo sem concessões, expressivo, mas longe de incidir no sentimental: um genuíno produto da pós-modernidade brasileira, em que a faina diária pela sobrevivência, gerando uma resistência desencantada, não permite luxos ao poeta, mas desaconselha a confiança em utopias.
Em Luas de neon, essa poesia rija, de sonoridades fortes, por vezes até estridentes, espoucando como murros numa vida que foge, se desdobra ora mansa ora torrencialmente, ora irônica, ora melancólica, sob o signo da autoconsciência não só do ofício poético, mas dos limites cada vez mais estreitos em que se movem aqueles que desejam pensar, compreender, entregar-se. Trata-se de um conjunto homogêneo de poemas, marcados pelo afã de buscar a palavra, não a certa, mas a fugidia, a que se nega, a que não se deixa domesticar, a que negaceia e finalmente se dá, mas diz ainda pouco, ante a vacância das coisas que deseja nomear.
Apesar do título, não se trata de uma poesia noturna, senão de vez em quando. O dia-a-dia é sua pedra de toque. No tormento de dias cinzentos, de incessante monotonia, dois motivos pontuam a trajetória do sujeito lírico: o cigarro e a bebida, corruptores e letais, mas irrecusáveis pontos de apoio para travessias que não encontram finalidade ou término. Nas perambulações desse fumante compulsivo, desse bebedor desgostoso, ovelha desgarrada de um rebanho dócil, a imagem que assombra horas e situações é sempre a mesma: a da iminência da morte, para a qual se nasce e em que o ser de ficção que fala ao leitor no texto não vê qualquer transcendência, por mais que a deseje e invoque.
Daí a existência de poemas que interrogam a Deus, sem obter respostas nem esperança de redenção. Essa é uma poesia que representa habilmente o tédio das horas paradas, dos amores acostumados, das relações desencontradas, dos passos sem rumo, dos esforços inúteis, uma poesia que trabalha a sugestão de uma entranhada mentalidade rural, amante da terra e de seus frutos, dos ritmos lentos e conversas pausadas, mas que se sente desarraigada, vagueando pela cidade, um território inóspito, onde tudo é repetição infinita, rotina reencenada, vazio de alma e angústia pelo outro inalcançável.
O livro de Paulo Becker ergue sua voz de papel sob o emblema de Maiakóvski, mas sente-se impotente: o poeta revolucionário já não move as multidões, por mais que se empenhe em despertá-las do marasmo e da indiferença. Por isso, o sujeito lírico finge comprometer-se, ergue imprecações contra sabiás, anjos e contra si mesmo, por não saber ou não poder amar, por querer acreditar sem conseguir, por encantar-se com a inocência da infância e sua capacidade de ver o mundo originalmente, mas não ter as artes da criança.
Criador de cenas insólitas, como a da cidade humanizada, ou a do poeta pescador, ou de soluções inesperadas como a de “A bela pontilhosa”, Paulo Becker revisita, com olhos de adulto ciente, formas e temas da poesia infantil, com toques de Cecília Meireles, mas também reflete e refrata a ironia poética de Mario Quintana, brinca com trocadilhos e até parlendas, num tom de paródia raras vezes bem humorada, mas no geral tingida de amargura, mesmo nos haicais, essa forma tão difícil, em que se sai liricamente bem, embora em clima de terra arrasada.
Zelosamente escondido sob a máscara do sujeito lírico, o poeta histórico sabe que a inovação por si mesma já não surte efeito, uma vez que tudo já foi dito e desdito. Espalha, pois, nos seus poemas, como quem não quer nada, as coisas do cotidiano, velhas conhecidas, de mistura com as engenhocas que facilitam o trânsito nesse mundo de contrastes pós-modernos. Desfilam em seus textos vidas por telefone, faxineiras aspirando pó, viagens de ônibus, ventos, venenos, cafezinhos, vitaminas, primaveras e meninas em flor, janelas gradeadas, corpos como sofás velhos, de molas de fora, lado a lado com homenagens a colegas poetas, o descaso dos editores com o reino das palavras, operários mortos-vivos, namoradas andróides e uma avó enterrada.
É assim que Becker dá a seu leitor a sua vida fictícia “em ordem e amarrada até a última ponta”. Paira sobre essa poesia desolada, que, em meio à crescente obscuridade dos tempos, não enjeita a clareza e a sensatez, uma sensação de catástrofe próxima, constantemente adiada, a que o texto quer resistir, em vão. O desconcerto do mundo, que já Camões proclamava, atravessa todo o livro e afasta qualquer tentativa de pensamento único. Com os pés bem assentados sobre esse solo de antíteses, diz o eu lírico: “Poeta, aplico minhas economias. / Materialista, vivo de epifanias.” Ao leitor, cabem os dividendos e a descoberta.
“Apresentação”. In: BECKER, P. Luas de neon. Porto Alegre: WS Editor, 2001.

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Paulo Bentancur
O poeta Paulo Becker, 35 anos, resolveu enfrentar um outro poeta, o maior de sua terra: Mario Quintana. A tese de doutorado em Teoria da Literatura na PUCRS de Becker foi sobre os cinco primeiros livros de Quintana, A rua dos Cataventos, Canções, Sapato florido, Espelho mágico e O aprendiz de feiticeiro. Becker sustenta que nesse quinteto está a essência e a forma da poética do autor de Apontamentos de história sobrenatural. Que toda a obra posterior do poeta, que no último 30 de julho completaria 90 anos, emana destes cinco títulos inaugurais e seminais. E produziu o primoroso Mario Quintana: as faces do feiticeiro (uma edição conjunta das editoras da UFRGS e da PUC).
Becker, autor de Alta tensão (Tchê, 1986) e Meus demônios cantam (Secretaria Municipal de Cultura, 1991), dois pequenos mas fortes volumes de poemas (quem duvidar que examine, no primeiro, “Três alumbramentos”, e, no segundo, “Merda”), e também de dois livros de literatura infanto-juvenil (O segredo dos planetas e Meu pai saiu de casa, Solivros, 1995), realizou, sob vários aspectos, o primeiro estudo consistente acerca do conjunto da produção poética de Quintana.
Estava faltando. Na introdução do ensaio, Becker observa: “A obra de Mario Quintana, pela magnitude, exige há muito tempo um estudo mais amplo. Em artigo datado de 1978, Ivan Junqueira faz a seguinte afirmação: ‘A crítica literária brasileira – às vezes estranha ao próprio conceito de crítica – jamais se ocupou como devia desse imenso poeta.’ E acrescenta: ‘Faz-se urgente e imperativa uma reavaliação crítica mais generosa e percuciente da poesia de Quintana.'” Becker informa: “A obra possui uma fortuna crítica constituída, em sua maior parte, de artigos e resenhas que se encontram dispersos pela imprensa nacional.” Esta fortuna crítica o jovem poeta organiza, anota, comenta, destrói, sublinha, corrige, fixa o que vale a pena (muito pouco).
Dividido em sete partes, o alentado volume de 230 páginas faz seu percurso sereno, sem pressa, com solidez. Abre com uma retrospectiva da repercussão dos livros de Quintana junto aos críticos e leitores. Aí examina também a entrada em cena de uma poética que trazia rastros do Simbolismo, já aposentado à época, porém com traços do clima instaurado pelo Modernismo – sem, no entanto, dar as mãos à escola que ditou suas regras em 1922 na Semana de Arte Moderna.
Depois trata de um a um dos cinco primeiros livros, analisando o que cada um deles foi acrescentando para o plano geral da obra, definitivamente fixado a partir de O aprendiz de feiticeiro. No último capítulo, um desfecho exemplar: “A influência clássica, em Quintana, vai muito além da forma. Seus temas essenciais, como a infância, o tempo, o amor, a morte e a poesia, pertencem todos à tradição da lírica. O poeta apenas os inscreve em um contexto novo, ora relacionado ao cotidiano, ora criado por sua fantasia.”
Mario Quintana: as faces do feiticeiro remete às cinco faces (o quinteto de livros inaugural) nas quais a obra de Mario se mostra plenamente. Até hoje, o velhinho de humor rascante, o anjo de asas na bunda a destoar na música do parnaso celestial ou o filósofo leve do cotidiano foram imagens que serviram às interpretações ligeiras e levianas dos críticos provisórios que dedicaram sua ignorância ou sua pressa à poesia única (sem pares: Quintana não foi epígono, e, aliás, nem os produziu) do homem que, como criador, atravessou, “sem desgaste, três gerações”. Atravessará outras tantas.
“Quintana afinal explicado.” JORNAL DO COMÉRCIO, Porto Alegre, 29 out. 1996.

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Maria da Glória Bordini
Este trabalho de um poeta muito sensível, sobre outro poeta que já se tornou mítico na literatura sulina, articula, sob o signo da contradição, as principais características encontradas pela crítica na obra de Mario Quintana: a prática da metapoesia, o gosto pelo poema em prosa, a linguagem simples e alusiva, o desenvolto trânsito entre o clássico e o moderno, aliados a uma profunda ironia e a inesperadas inquietações metafísicas.
Centra-se na coletânea intitulada Poesias, vista como a mais representativa do poeta, mas abre-se a toda a sua obra poética, oferecendo esclarecedoras análises que partem de um ângulo sociológico, sem jamais obscurecer a dimensão estética dominante na poesia dos quintanares. O livro é secundado por uma completa Cronologia da vida e da obra de Quintana e uma útil Bibliografia, que inclui tudo o que importa de sua fortuna crítica. A distribuição dos assuntos é equilibrada, o tom é ensaístico, elegante e escorreito, sem opor obstáculos conceituais ou terminológicos à leitura agradável que o texto propõe.
Como sondagem interpretativa de Poesias, este trabalho apresenta os melhores e mais originais insights sobre dois livros pouco conhecidos de Quintana: Espelho mágico e Sapato florido. Também o capítulo dedicado a A rua dos Cataventos é de uma sutileza difícil de ser igualada no trato com a forma do soneto, subvertida pelo modernismo do poeta.
Trata-se de uma competente e cativante investigação crítica, que oferece finas análises de poemas eleitos como exemplos significativos do todo de cada livro de Poesias – e eleitos com muita propriedade, pois os achados são extensíveis ao conjunto da obra do escritor. Graças à segurança teórica do analista e a sua arguta compreensão das ciladas do feiticeiro Quintana, o trabalho se constitui na mais perceptiva contribuição até agora aos estudos sobre o poeta.
BECKER, Paulo. Mario Quintana: as faces do feiticeiro. Porto Alegre: Ed. Universidade UFRGS / EDIPUCRS, 1996. (Orelhas.)

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Luís Augusto Fischer
Para definir a matriz desse olhar que capta o centro da cidade com estranheza, pode se recorrer a “Toco”, poema em que o poeta evoca um cenário anterior à cidade. Estariam nesse embate entre o registro do campo e o da cidade a razão e o sentido de “Alta tensão”, poética que dá nome ao seu livro?
FISCHER, L. A. Um passado pela frente. Porto Alegre: Ed. Universidade UFRGS, 1992.

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Ricardo Portugal
Toda poesia tem, pairando em torno de seu texto, uma cuidadosa alquimia (“alquimia do verbo”, dizia Rimbaud), a qual transmuta uma dimensão da experiência humana nos metais das palavras. O poema, Obra do Sol, resulta desta transmutação e a refaz continuamente. O poeta Paulo Becker, cujo livro de estréia Alta tensão foi publicado recentemente pela Editora Tchê, tem também sua alquimia própria, apenas ainda não o bastante descoberta e assumida.
A poesia de Paulo Becker relaciona-se com uma experiência vivida, raramente encontrada na poesia brasileira, a do camponês pobre da colônia alemã, que cresce na roça, vem para a grande cidade (presta serviço militar!), entra na Universidade e ainda lança um livro de poemas. Riquíssimo! Esta experiência, em suas diversas dimensões, que perpassa mal ou bem o livro de Paulo de cabo a rabo, poderia conferir-lhe a virtude de tornar poesia o que foi batido até a exaustão pelo paternalismo insosso e envelhecido de tantos intelectuais de classe média arrependidos do País: temas sociais como a pobreza, a luta de classes e a guerra. Tal, no entanto, não ocorre.
Os muitos poemas de Paulo Becker que tratam desses temas mantêm-se no árido lugar comum de um texto retórico e descritivo, próximo do queixume do discurso político, tão ao gosto daquele realismo do tipo CPC da UNE que já era desde 64, senão desde bem antes. Paulo, aqui, não assume sua alquimia. Seu texto por vezes parece paralisado pela repetição monótona de uma fala despersonalizada, desenvolvida a frio a partir de uma espécie de “opção pelos pobres”, opção por um discurso sobre, ao invés do discurso de, característico da poesia.
Mas não apenas este tipo de texto se encontra em Alta tensão. Surpreende-nos a beleza singular dos textos em que se poetiza, despretensiosamente, a experiência direta da vida no campo e na cidade e o universo da relação eu-outro. Quando Paulo vale-se da palavra “terra” (ou será ela que se vale dele?) salta aos olhos uma densidade diversa da comumente encontrada em outros poetas, um significado diferente dado por uma relação sensorial, afetiva com a terra. Nesses poemas, Paulo Becker trabalha amplamente a imagem poética, a metáfora flui solta e rica, com um certo sabor de Drummond e, em “Rodoviária”, chega a assumir alguma feição pessoana.
Nesses poemas, concordo plenamente com Ferreira Gullar: “Paulo Becker é um poeta, sem qualquer dúvida”. Mas o poeta Paulo Becker, em quem aposto, não é o mesmo de Ferreira Gullar, e sim aquele que assume a alquimia insubstituível e única da poesia, livre da contenção da culpa e de “pais” literários.
“Alquimia insubstituível.” JORNAL DO COMÉRCIO, Porto Alegre, 04 nov. 1986.

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Antonio Hohlfeldt
Há menos de cinco anos, Paulo Becker foi descoberto por um concurso literário regional. Agora, estréia com livro próprio, com dicção própria, com uma contribuição própria. Num estado em que, curiosamente, são os italianos os que têm dado a maior contribuição à poesia, Paulo Becker surge como um nome a considerar na área da herança germânica, muito depois de Augustyo Meyer, seu nome maior (sem esquecermos Raul Bopp, naturalmente, mas cuja atenção deslocou-se para a Amazônia e a negritude). Eis aí a primeira novidade: um poeta de tradição alemã, trazendo para a paisagem poética sul-rio-grandense um desenho diverso dos parreirais e das colinas prenhes da uva e do vinho. Um poeta duro, um poeta da dor, um poeta da difícil sobrevivência da vida sobre a morte, sempre presente.
Alta tensão é uma grata surpresa neste panorama literário atual. 25 anos de idade, uma experiência de vida aparentemente recatada à roça da colônia alemã e alguns anos de proletariado urbano depois que abandonou a cidade natal de Dois Irmãos. Mas é um poeta absoluto, seguro, dono de uma frase objetiva, refletindo sobre a poesia, sobre o desconsolo do cotidiano, a dureza da vida, as falsidades e contradições da classe média, a pobreza e a dor, numa poesia crítica, literalmente de alta tensão, de que não se exclui uma resistência radical à violência, uma defesa intransigente da vida, a recriação dos tempos infantis e, sobretudo, a nova paisagem – literariamente falando – da colônia alemã e de suas principais características, tendo a família como centro principal.
É a partir de si mesmo, de uma vivência aparentemente pequena e pouco ampla, mas muito distante, que Paulo Becker busca a matriz poética de seus versos: “eu sou a casa de força / onde a poesia me cria”, afirma ele com ênfase. Efetivamente, o volume com que estréia, dividido em duas grandes partes, a primeira das quais sem título, e a outra aparentando uma despretensão que não corresponde a sua importância – pelo contrário a esconde, pois é aí justamente que estão os versos voltados para as suas raízes rurais e as lembranças infantis – parte de vivências concretas e da observação não distanciada da vida que ferve a seu redor.
O poeta sabe da dureza da sobrevivência em condições adversas e, embora sem derramamentos desnecessários, registra este desafio em versos – contundentes como os de “Na funerária”: “Não carece verniz / quem saiu da pobreza, / nem se pede beleza / quando o morto é bonito” ou rompendo a forma tradicional do poema, para apresentar quase que um retrato descritivo de personagem miserável em “Teresa”: “pele branca precocemente enrugada com varizes nas pernas pés-de-galinha no rosto envilecido – pentelho escasso axilas raspadas cabelos secos curtos negros – sinal-escuro-sobre-a-sobrancelha-esquerda – orelhas pequenas nariz – dentes amarelos cáries obturações língua azul saliva (a grama verde no alto mas embaixo, entre insetos e úmido, apodrece) – unhas quebradas restos de esmalte vermelho – olhos vermelhos sono – 55 quilos – altura do chão de 1 metro e sessenta pequena na rua entre edifícios maior entre os móveis da casa viajando os mesmos gestos espelho 41 anos”.
Estas constatações, contudo, não lhe tirando a dramaticidade do verso, jamais o distanciam da defesa intransigente da vida, como no antológico “Amor dentro do táxi”, em “Capítulo” ou neste belo verso de “Rodoviária” – “Dizer que só a alegria pode contra a bomba atômica”.
O melhor deste volume, contudo, aquilo que dá identidade própria a Paulo Becker, é o conjunto de poemas reunido na segunda parte do volume, onde ele recria sua infância, as figuras da colônia, as dificuldades da pobreza rural mas, sobretudo, a densidade de experiências que o marcaram e marcarão pelo resto da vida, como em “Morro 5”, onde se lê:
Vejo as roças de sempre, iluminadas
pelo último sol, as casas
de sempre, as mesmas pessoas
que vejo cada dia nessas casas,
e sinto uma vontade imensa
de carregar tudo isso
em mim, dentro de mim.
Mas não é possível, eu sei.
As coisas são exteriores
a mim, têm existência
totalmente independente.
Eis um bom poeta que surge. Fiquemos de olho nele.
“Um novo poeta descreve a vida na região alemã.” GAZETA MERCANTIL SUL, Porto Alegre, 2 out. 1986.

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Ferreira Gullar
Paulo Becker é um poeta, sem qualquer dúvida. Sua poesia é clara e, não obstante, densa. Li seus poemas e senti neles a presença da poesia. Nesse particular, modéstia à parte, dificilmente me engano.
BECKER, Paulo. Alta tensão. Porto Alegre: Tchê, 1986. (Contracapa.)

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Luiz Carlos Caversan
“A cidade, o homem”, poesia vencedora [do prêmio Habitasul Correio do Povo Revelação Literária 1981] de Paulo Becker, foi considerada verdadeira revelação por Domingos Pellegrini Jr. e Josué Guimarães.
“Muita literatura movimenta o sul do país.” O ESTADO DE SÃO PAULO, São Paulo, 10 nov. 1981.

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Luis Fernando Verissimo
Paulo Becker, um surpreendente agricultor de Morro Reuter (RS), pode muito bem ser descrito como um Elton da poesia.
“Os Eltons.” ZERO HORA, Porto Alegre, 10 nov. 1981.

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