Chuva de molhar pato

Tarde de chuva fininha
Cai mansinha minha sina
O meu cérebro baldio
empoça de águas cinzas

Grilos cricrilam, sapos
coaxam dentro dos valos
Um ônibus passa lotado
de passageiros calados

Um vira-lata molhado
com pelos da cor do barro
com olhos da cor do barro
anda na rua de barro

Um mosquito dobra a esquina
Senta na cerca caída
Cresce sem dono o capim
em meio a montes de lixo

Um poste tromba num bêbado
Os besouros batem, cegos,
contra a luz que teima acesa
– farol perdido no ermo

Longe se escuta o ruído
de motores e buzinas
e ecos dos cantos e gritos
dos crentes em culto a Cristo

A chuva fina persiste
enquanto a noite se aninha
nos quintais e nas esquinas
da minha alma quase triste

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