Em nome do amor

Para João Cabral de Melo Neto, em memória

MARINA: Não me ame. Não me ame desse jeito. Seja apenas meu parceiro. Vamos rir juntos, falar besteiras. É pedir muito, meu amor?

LÚCIA: Não, não me ame desse jeito. Não faça de mim a tua vida. Pobre de mim. Pobre de ti, que não tens vida alguma, e te aferras a mim como se eu fosse a tua tábua de náufrago. E me levas junto para o escuro fundo, para o nada.

VÍVIAN: Não me ame desse jeito, ame primeiro a si mesmo. Preciso do amor que escuta e aceita, que curte e cuida. Assim, poderemos até falar em casamento. Poderemos vir a ter filhos, então, que não lhes faltará o amor.

MARINA: Não me ame, não, se você me ama. Seja apenas meu amigo. Amizade colorida também vale, por que não? Vale suspirar de saudade na ausência do outro. Vale brindar cada reencontro com um sorriso puro como a água da chuva. Um sorriso simples e natural e verdadeiro como o amor que queremos.

LÚCIA: Não me ame não me ame não me ame. Em nome do amor não me ame. Lave a boca antes de falar em amor. Não arraste na sarjeta o sublime nome do amor.

VÍVIAN: Não me ame se você me ama. Ame a si, que eu me amo a mim. Sempre amamos a nós mesmos no outro. Amamos a nós mesmos no amor que o outro tem por nós.

MARINA: Não me ame, não, desse jeito. Seja apenas meu amante. Eu quero que alguém me mate de amor, e não por amor.

LÚCIA: Não me ame mais. Eu te proíbo. Deixe de me amar agora mesmo. Pelo amor de Deus. Por todo amor que diz sentir por mim. Pare agora mesmo de me amar, e largue essa arma.

VÍVIAN: Não me ame como um cachorro ama o dono. Vá abanar o rabo em outra freguesia.

MARINA: Não me ame desse jeito. Seja apenas meu homem. Quero ser apenas tua mulher. Homem e mulher, para o amor foram feitos.

LÚCIA: Não me ame desse jeito torto. O amor não é uma fera tão cega e rasteira que se sacie com a vingança, e saia lambendo os beiços empapados de sangue. Dar um tiro no meu peito só vai provar que você não me ama, mais nada.

VÍVIAN: Não me ame mais do que você é capaz de amar-se. E não confunda ódio com amor. Fraqueza com amor. Loucura com amor. Eu sou imperfeita feito você.

MARINA: Não me ame. Seja apenas meu outro. Esse outro sem o qual eu mesma não existiria. Amar é só isso: existir em dobro.

LÚCIA: Não me ame mais, nem me fale em amor. É só isso que te peço. Agora, se quiser me matar, me mate. Mas não diga que foi por amor. O amor verdadeiro é o que doma o animal que há dentro de nós mesmos, e não o que se deixa dominar por ele. Você me dá pena. Adeus.

VÍVIAN: Não me ame desse jeito. Não me ame mais. Não quero ver nosso amor nos jornais. Não quero ver nosso amor embrulhando peixes no mercado. É pedir muito?  É pedir demais? O amor verdadeiro é silencioso e invisível como a vida. Você topa vivermos juntos?

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